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Capítulo Dois - A Carta

Pedro, naquela manhã, tomou seu café da manhã rapidamente para não se atrasar. Dirigiu seu carro até sua empresa, que herdara do pai quando este morreu. Muitos funcionários já caminhavam para seus postos e, timidamente, cumprimentavam o patrão. A sala na qual trabalhava ficava no último andar do prédio principal que possuía sete andares.

Tudo parecia bem. As pessoas ao seu redor nem imaginavam o sufoco passado por ele naquela noite. Chegavam sorridentes, conversando com seus companheiros de trabalho, felizes por mais um dia terem a oportunidade de crescerem. Olhava-as com compaixão, sentido-se um pouco invejoso por querer participar daquela felicidade.

Antes mesmo de chegar à sala, sua secretária o intimidava com os problemas da empresa. Ela costumava chegar meia hora antes para atualizar a papelada e entregar tudo pronto. Naquele dia não havia muito que fazer, apenas alguns papéis a assinar e poucos telefonemas.

Durante a manhã ficou aliviado, apesar do pouco serviço, foi suficiente para distraí-lo. Conseguiu refletir um pouco no que tinha sonhado. Mas desta vez sem temor, o pesadelo tornou-se apenas uma lembrança vaga em sua mente. Enquanto refletia, assinava seus papéis e preparava-se para a hora do almoço que aproximava-se. Seria um bom momento para relaxar e tentar esquecer de vez todo aquele constrangimento.

Ao meio dia, um funcionário o procurou, havia conseguido outro emprego e pretendia sair deste, pois no novo o salário seria maior e a localização mais próxima de sua casa. Pedro lamentou muito, estaria perdendo um ótimo funcionário e substituí-lo será um trabalho difícil. Não poderia oferecer uma proposta melhor, apesar da empresa não estar no vermelho, os lucros não eram suficientes para dar-lhe um aumento de salário. Quando o homem saiu, Pedro chamou sua secretária pedindo-a para selecionar candidatos ao cargo agora vago.

A secretária já possuía alguns currículos, entregou-os para já serem analisados, prometeu entregar mais alguns. Iria fazer algumas ligações, inclusive para agências, a fim de selecionar outros candidatos. Pedro, com esses primeiros, já começou fazer sua primeira seleção. De quase cem, ficou com dez. Antes de ir embora, a secretária entregou o restante, esses teriam que ser analisados em casa junto com os outros dez.

Logo em seguida, foi a uma lanchonete próxima à empresa para um rápido lanche, isso seria seu almoço. Não costumava ficar muito tempo longe do escritório, comandava mais de duzentos funcionários. Terminado seu almoço, voltou correndo, antes mesmo que sentasse, a secretária voltou a aparecer entregando mais papéis. A secretária tinha que mantê-lo sempre informado de tudo, então era costume entregar essa papelada contendo documentos ou informações financeiras.

Devido ao período do ano, para ele não tinha muito que fazer. Os papéis assinados normalmente eram contratos antigos a serem resolvidos, alguns currículos de cargos não necessários no momento. A empresa tinha muitos compradores, tentar conseguir novos era um objetivo, mas, durante aquele período, não costumava fazer esse tipo de serviço, pois os compradores evitavam comprar.

A jornada de trabalho daquele dia chegou ao fim quando o último funcionário deixou o local. Foi até o carro, passando pela guarita despediu-se do guarda. Virando a primeira esquina teve uma surpresa, havia um congestionamento. Apenas os carros do lado contrário andavam, apesar da baixa velocidade. Vendo a situação, ficou angustiado, gostaria de chegar em casa para o mais cedo poder dormir e compensar a noite anterior. Ainda teria que trabalhar antes mesmo que pudesse deitar-se.

Passou muito tempo andando apenas uns cem metros, aos poucos percorria o longo caminho até sua casa. Quase na metade, descobriu o motivo de tanto trânsito, um acidente, com mortos e feridos. Muitos curiosos paravam para ver o estrago, uma grande multidão cercava o local, motoristas quase desciam de seus carros para ver o acidente. Passou rapidamente para não ver o quanto havia se estragado. Tinha muitos corpos espalhados pelo chão, não dava para notar se estavam mortos ou apenas feridos. As ambulâncias tinham acabado de chegar, por isso o tempo para percorrer aquele local.

Passado por isso, o trânsito estava melhor, apesar dos muitos carros que voltavam para suas residências. Após mais de duas horas no congestionamento, chegou à sua casa. Estacionado o carro, foi logo ao banheiro para banhar-se enquanto refletia em tudo resolvido na empresa e no que deixara para o dia seguinte. Mesmo de uma forma indireta, gostava de estar em ligação com a empresa. Sempre que possível, já ia com os problemas resolvidos, precisando apenas ser executados.

Terminado o banho, foi até a cozinha para preparar seu jantar. Enquanto a comida estava no fogo, decidiu ir à sala para pegar as correspondências. Assim que chegava em casa, pegava-as logo para não esquecer, mas devido ao tempo que passou no trânsito, acabou esquecendo. Algumas contas para pagar, propagandas de todo tipo, mas uma chamou-lhe a atenção. Era uma carta de sua mãe. Ficou espantado, não esperava. Fazia muito tempo que não recebia notícias dela, será que algo de terrível tinha acontecido?

Voltou à cozinha, para tirar a comida, sentou-se à mesa e, enquanto comia, abriu as cartas, deixando a de sua mãe por último. Sua mãe vivia em uma cidade pacata de interior de estado, por isso mandava cartas para comunicar-se com seu filho. Antes mesmo de abrir aquela carta, pegou os currículos que tinha levado. Analisou um por um, naquele meio havia bons candidatos, mas, passado muito tempo, selecionou apenas cinco.

Terminado o trabalho, ligou para sua secretária para logo ligar para os candidatos, gostaria de, assim que chegasse, já está com os candidatos. Sua secretária retornou informando que alguns candidatos foram convocados, mas com outros não conseguiu falar e teria que ligar pela manhã. Apesar de achar o dia seguinte em cima da hora, acabou cedendo.

Agora chegara o momento que estava tentando evitar. Deixando os currículos de lado e tirando tudo o que havia em cima da mesa, pegou a carta, abriu-a, estava temeroso, não imaginava o motivo daquela correspondência, sentiu medo achando que algo grave aconteceu. Não havia como não notar a letra de sua mãe. Era belíssima.


Meu filho querido!

Envio essa carta para dizer o quanto sinto sua falta. Há mais de dez anos que não nos vemos. Não tem mandando notícias e isso deixou-nos preocupado. Precisamos saber como você está. Fico preocupada achando que algo de muito grave lhe aconteceu, às vezes tenho pesadelo, acordo assustada, mas não tenho como saber se estar tudo bem. Isso me deixa angustiada e passo o resto da noite em meio às lágrimas.

Nesses dez anos, tanto aconteceu. Seu pai ficou um período doente, fomos ao médico, mas não era nada grave, apenas uma gripe, ele está melhor, não precisa se preocupar. Apesar de continuar um pouco fraco, o médico disse que poderíamos ficar tranquilos. Caso a situação piorasse, pediu que voltássemos, mas até agora tudo vai bem. Achamos melhor não incomodar o médico, ele nos pediu para retornar caso a situação piorasse, pelo menos foi assim que eu entendi.

Gostaríamos muito de vê-lo, venha nos visitar. Nessa semana estaremos viajando, mas logo voltaremos. Está chegando um ferido, seria uma boa oportunidade de reencontrarmos. Seu quarto continua do mesmo jeito só esperando sua volta, todo dia o arrumo e choro ao lembrar-me de você e dos momentos que passamos juntos.

Como está sua vida? Seu trabalho está dando certo? Se precisar de qualquer coisa pode nos procurar. Seu pai estará disposto a ajudar-lhe, sabe que ele tem experiência e durante muito tempo exerceu essa profissão. Tenho tanto orgulho de você. Conseguiu alcançar novos horizontes. Chegou aonde seu pai nunca tinha chegado.

Seu pai sempre me intimida querendo saber mais sobre você, ele acha que estamos sempre em contato, tento explicá-lo, mas não me compreende. Ao responder esta carta, não se esqueça de mandar uma mensagem ao seu pai, ele sente muito sua falta. Já acordei com ele sonhando com você.

Espero que esteja tudo bem aí, que você tenha se alimentado corretamente. Não nos deixe sem notícias. Até breve!


Pedro ficara emocionado e ao mesmo tempo, zangado. Amassou a carta, pensou em jogá-la fora, mas, pensando um pouco mais, decidiu guardá-la caso precisasse. Limpou a mesa e lavou os pratos, terminado essas tarefas, subiu para dormir, quase parecido com a noite anterior, teve dificuldades ao dormir. Pensava em utilizar esta noite para compensar a anterior, mas as lembranças de sua infância voltaram atormentando-o.

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